Publicado por: Débora Podda em: 24/01/2012
Existe dentro de mim um botão, do tipo liga e desliga. Ele funciona quando menos espero e aciona em uma rapidez absurda. Esse botão muda o meu humor, o meu modo de agir durante o dia e ontem, o botão acionou o modo triste.
19:00 – Garoa em São Paulo, fila do ônibus – espera interminável.
A conversa na fila era que a rede elétrica estava com problemas, então o ônibus iria demorar. Fiquei com aquele olhar perdido para o outro lado da calçada.
Meus olhos param em um mendigo que veio da Praça da Sé e parou em frente a um pedaço de casca de melancia.
A casca estava com a parte em que havia polpa virada para baixo, mergulhada na poça d água que tinha se formado na calçada. Ele se abaixou, pegou a casca, secou na calça e começou a comer.
No momento em que ele se abaixou eu gritei( mentalmente) um NÃO e fiquei olhando…quem sabe ele pudesse ouvir meus pensamentos.
Mas ele não ouviu. Ele era só um homem que perdeu tudo na vida, sabe-se lá por quais motivos .Ele não era o Super Homem, com ouvidos biônicos.
O homem mastigava com dificuldade aquela casca. A fome deveria corroer suas entranhas.
No próximo segundo, o movimento involuntário do meu braço procurou a bolsa para pegar a certeira, mas lembrei: nunca ando com dinheiro na carteira. O que tenho (que sempre é pouco) deixo no banco e se precisar pagar algo, pago com o cartão de débito.
A partir desse exato momento de constatação é que o botão deu start na minha tristeza bipolar.
Eu tinha feito em poucos segundos um roteiro de operação.
1 – Desisto da fila do ônibus em que estava a pelo menos 20 minutos
2 – Vou até o bar que tem na esquina e peço pra fazer um lanche, dos grandes
3 – Pago com débito
4- Caminho até o outro lado da rua, entrego para o homem
5 – Ele come a que poderia ser a sua única refeição do dia(s)
6 – Entro na próxima fila, pego o próximo ônibus e vou pra casa, pensando que pude fazer algo de bom pra alguém
♥Olha como eu sou legal, prestativa e me importo com as dificuldades dos outros, tentando sempre ajudar♥
Ahan…. senta lá Cláudia.
O roteiro mudou já no primeiro tópico e segue aqui a verdade das pessoas acomodadas que só se preocupam com seu bem estar:
1- Já estou esperando esse ônibus a 20 minutos, quanto tempo vai demorar o próximo? Vai ficar escuro, estou cansada e ainda tenho que passar no supermercado.
2 – Até o cara do bar fazer o lanche, embalar, eu pagar, ahhh, vai mais uns 10 minutos.
3 – E se eu chegar com o lanche o homem não estiver mais lá ou não aceitar, ou estar bêbado ( o que me deixaria muito brava) ou tentar me assaltar?
Então, fiquei ali, parada, vendo o homem mastigando aquela casca dura de melancia, sua refeição do dia ou da semana. O ônibus chegou e eu parti em direção aos meus afazeres e ao meu conforto.
E fica a questão: Porque penso antes no meu bem estar? Porque sou imperfeita e acho que essa situação jamais irá acontecer comigo. Mesmo tendo certeza que NINGUÉM está livre disso. Só porque as voltas que o destino dá não estão escritas em lugar nenhum.
porque fazer dezenas de julgamentos, perdendo tempo em ajudar?
Um dia li uma história:
Uma família estava dentro da padaria comprando pães, frios e outras coisas e um homem observava pela vitrine, do lado de fora da padaria. O pai da família sentiu-se encomodado com a situação e preocupado com a segurança dos filhos e da mulher, pediu para que o segurança da padaria fosse até o homem e o expulsasse do local.
O segurança chegou e com bastante violência disse, empurrando o homem:
Vai pra lá, seu bêbado, não quero nenhum mendigo rondando a padaria. Circulando, circulando. meus clientes estão com medo que você os assalte na saída.
O homem então disse:
Senhor, eu vou sair mas gostaria de dizer que não sou assaltante. Estava apenas olhando os bolos decorados da vitrine e pensando em como minha filha Beatriz ficaria feliz ao comer um pedaço deles . E também não estou bêbado. O tremor dos meus braços e pernas é fraqueza senhor. Já tem 2 dias que não como. Mas fique tranquilo, sei que o senhor está apenas cumprindo ordens e eu vou sair da frente da padaria. tenha um bom dia e fique com Deus.
30/01/2012 às 0:56
Nossa que profundo!!!
Eu já passei por inúmeras situações assim. Te entendo.
Beijooooo